Frases Clássicas

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Usos e Costumes: Doutrinas de Deus ou dos Homens?


Thiago Lima Barros
A questão do comportamento cristão sofre um debate sem paralelo nos últimos duzentos e cinquenta anos. Nesse período, surgiram interpretações sem precedentes anteriores, que terminaram por se tornar majoritárias, ao mesmo tempo em que buscavam justificativas para seus entendimentos ao longo das Sagradas Escrituras. Refiro-me às chamadas doutrinas de usos e costumes, muito em voga principalmente no meio pentecostal histórico, do qual constituem um traço cultural bastante arraigado.
A cerveja do pai da reforma.
Até meados do século XVIII, questões como vestuário, uso do álcool, acesso à informação e à arte seculares, dentre outras, eram desconhecidas da igreja cristã. Mesmo porque o padrão de indumentária europeu era uniforme, as restrições à leitura se restringiam ao Index romanista.

Lutero fabricava sua própria cerveja (na verdade não ele, mas sua esposa Catarina), e Calvino recebia, como parte de seu salário anual em Genebra, sete tonéis de vinho. A igreja era doutrinada a usufruir de tudo com moderação, como produto da Graça de Deus, e não se deixar dominar por nenhuma delas.
Calvino é marca de cerveja européia.
Todavia, o início do movimento metodista nas Ilhas Britânicas veio acompanhado de uma reversão de tendência quanto a esses assuntos, a começar pela questão das bebidas alcoólicas. À época, com o advento da Revolução Industrial, as cidades não oferecem infraestrutura suficiente para atender às demandas da população que aflui do campo para trabalhar na indústria nascente, o que inclui a oferta de água potável. Bebidas destiladas e fermentadas passam a substituir a água. Porém, o ambiente de pobreza extrema em que viviam os operários propicia os excessos no uso de bebidas. A embriaguez se torna uma constante, e se transforma num problema social.
John Wesley foi o primeiro a se insurgir contra os excessos do álcool entre os crentes, e foi o primeiro a articular um movimento de proibição do seu uso. Em seus sermões, Wesley reprovava o uso não-medicinal de bebidas destiladas, como conhaque e uísque, e dizia que muitos destiladores que vendiam seus produtos indiscriminadamente não eram nada mais do que “envenenadores e assassinos amaldiçoados por Deus”. Porém, os Artigos de Religião de Wesley, adotados pela Igreja Metodista Episcopal nos Estados Unidos em 1784, admitiam em seu Artigo XVIII que o vinho é para ser usado na Ceia do Senhor, e preceituavam, no Artigo XIX, que ele deveria ser ministrado a todas as pessoas, e não apenas aos clérigos. Da mesma forma, as recomendações para pregadores metodistas indicam que eles deveriam escolher água como bebida comum e usar o vinho apenas como medicamento ou na Ceia.

 O Movimento de Temperança


J. Wesley, o precursor do movimento anti-alcool.
 No entanto, o pensamento metodista acerca do assunto era compartilhado por poucas pessoas, até a publicação de um folheto de autoria do médico Benjamin Rush, um dos signatários da Declaração de Independência norte-americana, que deblaterou contra o uso de “espíritos ardentes” (álcool destilado), introduziu a noção de vício e prescreveu a abstinência como única cura.
Apesar da adesão de alguns pregadores proeminentes, o movimento perdeu força durante a Guerra de Secessão, para mais tarde ressurgir por meio da União Feminina pela Temperança Cristã, e foi tão bem sucedido na realização dos seus objetivos que Catherine Booth, esposa do fundador do Exército da Salvação William Booth, observou, em 1879, que quase todos os ministros cristãos estadunidenses haviam se tornado abstêmios. O movimento, liderado por feministas conservadoras como Frances Willard, conseguiu a aprovação de leis anti-álcool em vários estados, e atingiu o seu zênite político em 1919, com a promulgação da Décima Oitava Emenda à Constituição dos Estados Unidos (Lei Seca), que estabeleceu a proibição da venda e consumo de álcool no país inteiro, revogada mais tarde, em 1933, pela Vigésima Primeira Emenda.
Francis Willard ajudou a "secar" os E.U.A.
Inicialmente se opondo apenas ao álcool destilado, a mensagem do movimento de temperança foi mais tarde alterada para defender sua eliminação total, especialmente na Ceia do Senhor. Tal posicionamento foi em grande medida influenciado pelo Segundo Grande Despertar, que enfatizava a santidade pessoal e o perfeccionismo na práxis cristã.
Os efeitos jurídicos e sociais resultantes do movimento, como visto, atingiram seu pico no início do século 20 e começaram a declinar logo depois. Os efeitos sobre a prática da igreja foram principalmente um fenômeno do protestantismo americano. O Pentecostalismo e as Restrições Consuetudinárias – Porém, no ambiente pentecostal, que sofreu, como (e do) Movimento de Temperança um influxo filosófico bastante forte do Movimento de Santidade, (o qual, por sua vez, é resultado direto do Segundo Grande Despertar), o proibicionismo, longe de arrefecer, foi adotado como cláusula pétrea. Afinal, ainda não havia bases teológicas de fundo mais intelectual: tudo era mais voltado ao experiencialismo da glossolalia e da cura divina, o que enfatizava ainda mais a tese de separação artificial do mundo e de suas coisas.
Mais tarde, porém, mesmo com o aprimoramento teológico dos ministros pentecostais, as mudanças de postura foram poucas, e meramente pontuais, fora a tolerância com abusos na rigidez das regras, mormente em locais menos desenvolvidos economicamente. Logo, para além da proibição da ingestão de álcool, surgiriam outras questões nas quais a resposta era uma só: proibido.
Ademais, tanto o pentecostalismo como o neo-pentecostalismo, juntamente com metodistas e grupos afiliados ou decorrentes destes, são os únicos grupos que elevaram tais restrições ao status de doutrina; se não na teoria, pelo menos na prática diária. Os demais ramos da cristandade protestante rechaçam esse tipo de associação, muito embora tambem tenham cometido esse tipo de excesso ao longo da história. Basta ver, nesse ponto, o que sofreram dois músicos cristãos: o alemão Johann Sebastian Bach, que foi obrigado a conter sua criatividade diante do estilo simplório de música imposto pela corte do príncipe calvinista Leopoldo de Anhalt-Köthen; e o brasileiro Luiz de Carvalho, que era anatematizado nos meios batistas por tocar... Violão!

O principe os púlpitos - Spurgeon era fumador de charutos e virou marca. Um outro momento cultural.


Usos e costumes no pentecostalismo brasileiro

Otto Nelson
É com os pentecostais, mormente da Assembleia de Deus, que o proibicionismo do Movimento de Temperança deita suas raízes no Brasil. De início, essa influência não se dá de forma institucional: o debate sobre questões relativas à inserção do pentecostal no mundo, ao contrario do que alguns líderes querem fazer parecer, era intenso e muitas vezes descambava para o rompimento pessoal entre os pastores divergentes. Nessa fase (de 1930 a 1975), o tratamento dessas questões era eminentemente personalista: cada pastor decide acerca das regras comportamentais a serem seguidas pelo rebanho, e muitos o fazem de forma radical.
Foi o caso do presbitério da AD de São Cristóvão (fundada por Gunnar Vingren em 1924), o qual, n’O Mensageiro da Paz da primeira quinzena de julho de 1946, em decisão unilateral datada do dia 4 de junho, sob a presidência do missionário sueco Otto Nelson, estabeleceu regramentos draconianos sobre o vestuário e cortes de cabelo femininos.
Samuel Nyströn
A dureza da Resolução de São Cristóvão, como passou a ser conhecida, aliada à evidente misoginia que a perpassava, não deixaram de ser notadas na 8ª Reunião da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil, realizada em Recife em fins de outubro do mesmo ano. Os convencionais exigiram a retratação da congregação carioca. Quase no apagar das luzes da rodada de reuniões, o Presidente da CGADB, o tambem missionário sueco Samuel Nyströn, faz publicar um texto intitulado “Dando lugar à operação do espírito”, no qual rechaça o zelo jacobino da Resolução. Não por acaso, Nyströn abre o artigo com a citação do capítulo 4, versículo 6, do livro de Zacarias: “não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito diz o Senhor dos Exércitos”.
Com a refutação, veio a retratação da AD de São Cristóvão, em janeiro de 1947, e um silêncio de 16 anos acerca de questões consuetudinárias. Elas só voltam à baila em 1962, e de forma pontual. Essa tendência é revertida em 1975, com a publicação de uma resolução na 22ª reunião da CGADB, realizada em Santo André (SP), contendo oito restrições comportamentais, de observância obrigatória para os membros das AD’s. Eis a íntegra da mesma:
E ser-me-eis santos, porque eu, o Senhor, sou santo, e separai-vos dos povos, para serdes meus (Lv 20.26).

A Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil, reunida na cidade de Santo André, Estado de São Paulo, reafirma o seu ponto de vista no tocante aos sadios princípios estabelecidos como doutrinas na Palavra de Deus - a Bíblia Sagrada - e conservados como costumes desde o início desta obra no Brasil. Imbuída sempre dos mais altos propósitos, ela, a Convenção Geral, deliberou pela votação unânime dos delegados das igrejas da mesma fé e ordem em nosso país, que as mesmas igrejas se abstenham do seguinte:

1. Uso de cabelos crescidos, pelos membros do sexo masculino; 
2. Uso de traje masculino, por parte dos membros ou congregados, do sexo feminino;
3. Uso de pinturas nos olhos, unhas e outros órgãos da face; 
4. Corte de cabelos, por parte das irmãs (membros ou congregados);
5. Sobrancelhas alteradas;
6. Uso de mini-saias e outras roupas contrárias ao bom testemunho da vida cristã;
7. Uso de aparelho de televisão – convindo abster-se, tendo em vista a má qualidade da maioria dos seus programas; abstenção essa que justifica, inclusive, por conduzir a eventuais problemas de saúde;
 8. Uso de bebidas alcoólicas.
Geziel Gomes
Um detalhe interessante: a resolução acima foi lida na Convenção pelo pastor Geziel Nunes Gomes, a pedido do presidente da CGADB à época, pr. Túlio Barros Ferreira, coincidentemente (ou não) responsável pela AD de São Cristóvão. Ambos se desfiliaram da AD anos mais tarde, aderindo às doutrinas heréticas da Confissão Positiva e do G-12.
Daí por diante, a tendência é de recrudescimento dessa postura até 1999, quando, por ocasião do 5º Encontro de Líderes da Assembleia de Deus (ELAD), ocorre uma espécie de aggiornamento assembleiano: sem abrir mão do positivismo exacerbado de Santo André, tenta-se contextualizar as exigências mais como recomendação do que como decálogo (ou octólogo) denominacional. Mas mesmo esse documento padece de um certo “complexo de Gabriela”, numa indisfarçável demonstração de soberba denominacional:
Quando afirmamos que temos as nossas tradições, não estamos com isso dizendo que os nossos usos e costumes tenham a mesma autoridade da Palavra de Deus, mas que são bons costumes que devem ser respeitados por questão de identidade de nossa igreja. Temos quase 90 anos, somos um povo que tem história, identidade definida, e acima de tudo, nossos costumes sãos saudáveis. Deus nos trouxe até aqui da maneira que nós somos e assim, cremos, que sem dúvida alguma ele nos levará até ao fim.

Conclusão 
Nas faculdades de Direito, estudamos que o costume é um dos vários meios de integração do ordenamento jurídico, utilizados em virtude do caráter genérico dos textos legais, que não raro apresentam lacunas. Ele deriva da prática reiterada de dado comportamento, devido à convicção sobre sua obrigatoriedade (a qual, se violada, acarretaria alguma sanção), e seu uso deve ser uniforme, constante, público e geral.

Túlio Barros
No entanto, a história dos avivamentos pelos quais a Igreja Cristã passou a partir do século XVIII, malgrado seus benefícios espirituais, teológicos, éticos e sociais, trouxe um grave efeito colateral para essa mesma Igreja: uma prática de usos e costumes nascida não da convicção do corpo iluminado pelo Espírito Santo, como deveria ser, mas do tacão dos líderes. Embora siga uma linha pentecostal clássica, seja neto de assembleianos por parte de pai e creia que a conduta cristã deva ser diferenciada da que é corrente no mundo, creio que essa jurisprudência deve ser escrita nas tábuas do coração, e não imposta de maneira bonapartista pela liderança, por mais bem-intencionada que esta seja.
Nenhum cristão realmente nascido de novo em Cristo, em sua saníssima consciência, vai defender a libertinagem, vestimentas indecorosas, embriaguez, enfim, uma postura de evidente mundanismo. Precisamos, de fato, ser santos como o Nosso Senhor o é. O problema é que, no afã de vivenciar essa santidade, houve um retorno inconsciente ao legalismo mosaico e aos seus rudimentos fracos, e o bebê foi jogado fora junto com a água do banho. Ou seja, a fruição dos bens dados pelo Senhor ao ser humano (quem lê, entenda) foi relegada, em alguns casos, a uma condição de conduta pecaminosa, mesmo que não ofenda as Escrituras em momento algum.

 Cuidados com o corpo e o vestuário são pecado? Jamais! Antes, evidenciam o cuidado que temos com o templo do Espírito Santo: nosso corpo. Sem extravagâncias, mas com elegância. E o vinho, não alegra o coração do homem (Sl. 104:15)? E, da mesma forma, a embriaguez é condenada (Pv. 20:1). Sem contar que o mau uso que se faz dos meios de comunicação não os torna invenções de Satanás. Afinal, se a televisão não podia sequer entrar nos lares dos crentes, como os herdeiros dos que contra ela verberavam hoje dela se valem? Enfim, os lineamentos para o usufruto das dádivas de Deus são explícitos na Bíblia: basta segui-los, pois todas as coisas nos são lícitas, mas não nos deixamos dominar por nenhuma delas (I Co. 6:12). Encerro rememorando o rasgo de sensatez que o Nosso Deus e Pai do Nosso Senhor Jesus Cristo bafejou no coração do pastor Samuel Nyströn, por ocasião do debate acerca da Resolução de São Cristóvão, no gracioso libelo “Dando lugar à operação do espírito”, orando ardentemente para que todos os cristãos, lideres principalmente, façam dessas palavras sua prática diuturna de vida:
Em qualquer tempo, lugar ou circunstância, devemos lembrar-nos que não se consegue fazer a obra do Senhor por força nem por meios violentos, resoluções ou imposições, mas a obra do Senhor se realiza pela intervenção criativa de Deus e pela lei do crescimento externo da obra do Senhor, mas igualmente quando se tratar do crescimento interno desta, tanto individual como coletivamente.

Mesmo durante a Dispensação da Lei, a Lei não conseguiu outra coisa senão descobrir e pôr o pecado em atividade, tendo como resultado a morte (...) enquanto a fé não tinha vindo, a Lei teve um alvo como pedagogo: conduzir homens a Cristo. Mas, tendo vindo a fé, não estamos mais debaixo do pedagogo (a Lei), e nem devemos fazer ressuscitar leis ou inventar outras leis para que não fiquemos no lugar dos gálatas, que foram chamados insensatos e a respeito dos quais Paulo temia que todo o seu trabalho se tornasse vão (...) Cristo veio com a graça e, então, a Dispensação da Lei se encerrou. Em lugar do mandamento prévio. que foi ab-rogado por sua fraqueza e inutilidade, pois 'a Lei nada fez perfeito', foi introduzida uma melhor esperança, pela qual nos chegamos a Deus: Cristo, que é nosso Sacerdote, segundo o poder de uma vida indissolúvel (...) Portanto, o que realmente tem valor para nós é ‘a fé que opera por amor’, por isso não nos justificamos pela Lei ou leis, para não sermos decaídos da graça e separados de Cristo (Gl 5.6).

As ordenanças para manifestar humildade e servidade com o corpo servem para satisfazer a carne, o erro, e elas com facilidade arranjam os que se julgam mais santos do que outros, e isto resulta em inchação vã e cria espírito de fariseu, que é o maior impedimento para as bênçãos de Deus.

Há muitos países e muitas formas de se trajar neste mundo, bem como muitos climas diferentes, e tudo isto deve ser considerado, mas como a Palavra de Deus diz: ‘com modéstia e sobriedade’. O que a Escritura ensina em relação a este assunto é que as mulheres devem ser castas e tementes a Deus, tanto as que são casadas como as moças (...) lembremo-nos também que há muitas outras coisas que são igualmente perigosas para a obra do Senhor, que só pelo Espírito Santo poderão ser removidas, como o amor ao dinheiro (...) o homem ostentado justiça própria, criticando tudo e todos, é um indivíduo perigoso para o avanço da unidade da obra do Senhor.


      Fontes:

  • Christian views on alcohol
  •  Woman's Christian Temperance Union
  •  FONSECA, André Dioney. São Cristóvão e Santo André: os debates sobre a normatização dos usos e costumes nas convenções gerais das Assembléias de Deus no Brasil (1930-1980) Juiz de Fora: Sacrilegens (Revista dos Alunos do Programa de Pós-graduação em Ciência da Religião - UFJF), v. 6, nº 1, p.41-59. Tb. Disponível em http://www.ufjf.br/sacrilegens/files/2010/04/6-5.pdf

Leia Mais em: http://www.genizahvirtual.com/2012/02/usos-e-costumes-doutrinas-de-deus-ou.html#ixzz1mvdoVEcF
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Avaliando a Igreja Moderna

  Por John McArthur
Deus leva a sério a pureza da igreja. Essa foi uma lição precoce e inesquecível acerca de como Deus vê o pecado na comunhão dos crentes. Em essência, Deus estava dizendo: "Eu não estou brincando de igreja; não brinco com pecadores; não estou interessado em ser 'amigável'. Desejo retidão, verdade e corações sinceros". Com isso, Ele testemunhou estar realmente falando com seriedade. A igreja não é um "clube" social.
Qual foi, então, o resultado desse episódio? "E sobreveio grande temor a toda a igreja (At 5.11). Naquele dia, houve um cuidadoso auto-exame entre todos os que estavam ligados à igreja de Jerusalém. E a questão era exatamente essa: Deus estava purificando a sua igreja. Ele queria ver seu povo encarando o pecado com seriedade. Tencionava desencorajar a falta de compromisso. Queria que as pessoas o temessem. A igreja se reúne para cultuar a Deus, e isso exige a confrontação do pecado. Neste episódio, Deus nos fornece um modelo básico para a reunião da igreja — o pecado sendo tratado com severidade. A questão não é o que os incrédulos pensam a respeito de tal severidade, e, sim, o que Deus pensa sobre tal iniquidade.
Com certeza, na Jerusalém do primeiro século havia outros pecadores mais vis do que Ananias e Safira. Herodes, por exemplo. Por que Deus não o fulminou? Na verdade, foi o que Deus fez posteriormente (At 12.18-23). Mas, como escreveu Pedro, "a ocasião de começar o juízo pela casa de Deus é chegada" (1 Pe 4.17). Deus julga seu próprio povo antes de voltar sua ira aos pagãos.
Será que a igreja pode evitar o juízo de Deus? Sim, mas somente através do purifícar-se a si mesma. Após haver alertado a igreja de Corinto sobre o fato de que Deus, por meio de doenças e morte, estava julgando os seus membros que insistiam no pecado, Paulo lhes afirmou: "Porque, se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados" (1 Co 11.31). Em outras palavras, é tarefa dos membros fiéis manter a pureza da igreja. Com toda a franqueza, o ensino desta realidade causa mais impacto sobre os incrédulos do que uma conversa branda e informal cujo propósito é fazê-los sentirem-se bem-vindos e aceitos. Isto deixa os incrédulos cientes de que a igreja é um povo santo e um lugar para os redimidos que amam a retidão, e não para pecadores impenitentes.
Mantemos a pureza ao seguirmos o princípio que Jesus delineou em Mateus 18: "Se teu irmão pecar [contra ti], vai argui-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano (vv. 15-17). Referimo-nos a esse processo como "disciplina da igreja". Pode não parecer um conceito muito "amigável", mas é o que Deus ordena. O objetivo é purificar a igreja e, desta forma, abençoá-la e protegê-la contra o juízo de Deus. Paulo escreveu: "Mas, quando julgados, somos disciplinados pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo" (1 Co 11.32).
Jesus acrescentou: "Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra terá sido ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra terá sido desligado no céu. Em verdade também vos digo que, se dois dentre vós, sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer cousa que porventura pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai, que está nos céus. Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles" (Mt 18.18-20). Lembre-se que, nesse contexto, nosso Senhor estava explicando como lidarmos com o pecado na igreja.
A verdade é que Cristo realiza a sua própria vontade na igreja através do processo de disciplina. "Ali estou no meio deles" significa que Ele mesmo opera em e através dos crentes, a fim de purificar a sua igreja, na medida que estes seguem as orientações delineadas por Ele. O resultado é que os pecadores arrependidos são restaurados (o pecado que cometeram é "desligado" deles), e os pecadores impenitentes são denunciados e expulsos da comunhão (o pecado que cometeram permanece "ligado" a eles). Se não seguirmos este processo e, consequentemente, não mantivermos a igreja pura, o Senhor intervirá com juízo (1 Co 11.3)

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Memórias de A. W. Tozer

     A Posição Vital da Igreja

A expressão mais alta da vontade de Deus nesta era é a igreja que Ele comprou com seu próprio sangue. Para ter valor conforme os princípios bíblicos, toda atividade religiosa precisa fazer parte da igreja. Quero declarar incisivamente que Deus só aceita aqueles ser­viços que se concentram na igreja e têm nela sua origem. Escolas dominicais, sociedades para distribuição de folhetos, comitês de ho­mens de negócios cristãos, e os muitos grupos independentes traba­lhando em uma ou outra fase da religião precisam fazer uma auto-analise com reverência e coragem, pois não possuem qualquer signi­ficado espiritual verdadeiro fora da igreja ou em separado dela.
Segundo as Escrituras, a igreja é a habitação de Deus através do Espírito, e como tal o organismo mais importante debaixo do sol. Ela não é apenas mais uma instituição importante, juntamente com o lar, o Estado e a escola; mas a mais vital de todas as instituições — a única que pode alegar uma origem divina.
O cínico pode perguntar a que igreja nos referimos, e pode lem­brar-nos de que a igreja cristã acha-se tão dividida que seria impos­sível dizer qual a verdadeira, mesmo que esta exista. Não ficamos porém demasiado constrangidos com o sorriso disfarçado do zombador. Por estarmos dentro da igreja, provavelmente conhecemos as suas falhas melhor do que qualquer pessoa do lado de fora possa conhecê-las, e cremos nela mesmo assim, onde quer que se manifeste num mundo de trevas e incredulidade.
A igreja é encontrada sempre que o Espírito Santo reúna algu­mas pessoas que confiem em Cristo para a sua salvação, adorem a Deus em espírito e não tenham qualquer associação com o mundo e a carne. Os membros podem, devido às circunstâncias, estar espa­lhados sobre a superfície da terra e separados pela distância e pela necessidade, mas em cada verdadeiro membro da igreja abriga-se o instinto comunitário e a ânsia da ovelha pelo redil e o pastor. Basta dar a alguns cristãos verdadeiros uma brecha e eles se agrupam. organizando e planejando reuniões regulares de oração e culto. Nes­sas reuniões ouvem uma exposição das Escrituras, partem juntos o pão de uma ou outra forma segundo julgam melhor, e tentam na medida do possível transmitir ao mundo perdido o evangelho da salvação.
Grupos assim são células no Corpo de Cristo, e cada uma delas é uma verdadeira igreja, uma parte real da igreja maior. É nessas células e através delas que o Espírito opera na terra. Quem zomba da igreja local zomba do Corpo de Cristo. A igreja deve ser ainda levada em conta. "As portas do inferno não prevalecerão contra ela."
O Melhor de A W Tozer.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Sutilezas da teologia


Túmulo vazio - jardim da tumba, Jerusalém
Prezado leitor,

Alguém me mandou o texto Adão e Eva somos nós. Título que chama a atenção e conecta imediatamente quem conhece a história bíblica com a realidade, afinal, como descendentes de Adão e Eva carregamos todos os dias as marcas do seu pecado em nossa natureza e herdamos a 'originalidade do pecado' (a doutrina do pecado original afirma a verdade bíblica da universalidade do pecado - Rm 5:12-14).   Entretanto, fiquei  incomodado com algumas afirmações feitas no texto. Ainda que eu seja como Adam, formado como ele e caído como ele, culpado como ele e sujeito aos mesmos erros e condenação, não sou Adão. Ele foi um personagem na história da humanidade, o primeiro ser humano criado por Deus,  assim como Jesus, a segunda pessoa da Trindade, encarnou-se e veio ao mundo num lugar, dia e hora específicos. Não é uma questão de ótica e ideia a respeito da humanidade, mas o relato da história da criação e queda, por mais embaraçoso que possa ser para qualquer um.  Diante disso, pensei se algo semelhante não poderia ser escrito a respeito de Cristo e dos Evangelhos. Veja como fica:

Você pode interpretar a história de Jesus como uma descrição de como as coisas aconteceram. Mas pode também interpretar como descrição de como as coisas acontecem. Pode ser uma história que conta como as coisas foram, ou como as coisas são. Pessoalmente, opto pela segunda alternativa. Não me interesso tanto em saber se as coisas foram daquele jeito ou não, não estou preocupado com a literalidade da narrativa, que aliás, me traz mais embaraços que esclarecimentos: houve mesmo um menino nascido de uma virgem e concebido pelo Espírito Santo? e aquela história da estrela e dos sábios do oriente?  e aqueles milagres e expulsões de demônios? alguns pães e peixes para alimentar 5000 pessoas? o que será que fizeram do que sobrou? andar sobre as águas? túmulo vazio e ressurreição dentre os mortos? anjos anunciando a ressurreição e depois Jesus atravessando paredes e comendo junto do mar? será que a comida não atravessou direto? 

A história de Jesus, sua morte e ressurreição, visa a comunicar a ótica cristã da necessidade humana de se relacionar com Deus por meio do sacrifício pessoal e do dar-se aos pobres e necessitados. O autor bíblico não está preocupado em descrever o processo mecânico de um sacrifício para cumprir a justiça do Deus daquela cultura antiga. Seu texto não tem a pretensão das religiões pagãs, que tratam de um Deus que foi ofendido pelo pecado de Adão e Eva, mas de uma religião do amor, que têm por objeto a complexidade do humano e suas relações.
Jesus Cristo somos nós quando nos entregamos ao próximo, sem tentar definir o bem e o mal, o certo e o errado, sem ambição e auto-suficiência, buscando o bem dos outros e suas necessidades. Somo Jesus Cristo quando não optamos pela competição em detrimento da cooperação, deixamos a violência e damos lugar ao diálogo...

Pois é leitor, afirmações sutis podem parecer belas, mas destroem a fonte de autoridade bíblica na revelação registrada e a doutrina reformada do Tota Scriptura. Não estou afirmando que o autor do texto citado no início vá concordar com a paródia acima. Mas estou apontando o fato de que desprestigiar a autoridade do texto bíblico pode nos colocar em posição estranha com relação à Escritura. Esta tem sido a proposta, tanto do antigo liberalismo como da mais piedosa e moderna neo-ortodoxia.
 
Pois eu, entre as duas leituras, fico com a primeira, fico com a narrativa das Escrituras, suas consequências e seu embaraço!

A Fé se Arrisca a Falhar


Neste mundo os homens são julgados pela habilidade com que fazem as coisas.
São avaliados de acordo com a distância que cobriram na esca­lada do monte da realização. No sopé jaz o fracasso total; no topo o sucesso completo; e entre esses dois extremos a maioria dos homens civilizados sua e labuta, da juventude à velhice.
Alguns desistem e escorregam para o sopé, e se tornam ocupan­tes da Fileira do Raspa-Chão. Ali, perdida a ambição e rota a vontade, subsistem graças a empréstimos, até a natureza executar-lhes a hipo­teca e a morte os levar.
No alto estão os poucos que, por uma combinação de talento, árduo trabalho e boa sorte, conseguem chegar ao pico, e ao luxo, fama e poder que ali se encontram.
Mas nisso tudo não há felicidade. O esforço para ter sucesso exerce muita pressão sobre os nervos. A excessiva preocupação com a luta pela conquista aperta a mente, endurece o coração e veda mil visões fulgurantes que poderiam ser desfrutadas se tão-somente houvesse vagar para notá-las.
O homem que chega ao pináculo raramente é feliz por muito tempo. Logo é devorado por temores de que pode escorregar uma estaca abaixo e ser forçado a dar seu lugar a outro. Acham-se exemplos   disto  no  modo  febril   como   o   astro   da   TV   observa   a classificação do seu valor, e como o político examina a sua corres­pondência.
Faça-se saber a um magistrado eleito que um levantamento de dados mostra que ele é dois por cento menos popular em agosto do que fora em março, e ele começa a suar como um homem a cami­nho da prisão. O jogador de bola vive por suas médias de rendimento no campo, o homem de negócio por seu gráfico ascendente, e o concertista pelo medidor dos seus aplausos. Não é incomum suceder que o lutador desafiante no ringue chore abertamente por não conseguir nocautear o campeão. Ser o segundo colocado o deixa completamente desconsolado;  tem de ser o primeiro para ser feliz.
Esta mania pelo sucesso é a preservação de uma coisa boa. O desejo de cumprir o propósito para o qual fomos criados é, por certo dom de Deus, mas o pecado retorceu este impulso e fez dele uma cobiça egoísta pelo primeiro lugar e pelas honras das altas posições. O mundo inteiro dos homens e arrastado por esta cobiça como por um demônio, e não há escape.
Quando vamos a Cristo entramos num mundo diferente. O Novo Testamento nos apresenta uma filosofia espiritual infinitamente mais elevada do que a que motiva o mundo, e inteiramente contrária a ela. Conforme o ensino de Cristo, os humildes de espírito são bem-aven­turados; os mansos herdam a terra; os primeiros são os últimos, e os últimos são os primeiros; o maior homem é aquele que serve melhor os outros; o que perde tudo é o único que por fim possuirá tudo; o homem do mundo coroado de êxito verá os tesouros que acumulou serem varridos pela tempestade do juízo; o mendigo juste vai para o seio de Abraão, e o rico arde nas chamas do inferno.
Nosso Senhor morreu em aparente fracasso, desacreditado pelos líderes da religião estabelecida, rejeitado pela sociedade e abandona­do pelos Seus amigos. O homem que O mandou para a cruz foi o estadista de sucesso cuja mão o ambicioso mercenário político beijara. Coube à ressurreição demonstrar quão gloriosamente Cristo havia triunfado e quão tragicamente o governador tinha fracassado.
Contudo, a impressão que se tem hoje é que a igreja não apren­deu nada. Continuamos vendo como os homens vêem e julgando à maneira do julgamento humano. Quanto trabalho religioso leito com o ativismo do pastor tem por motivação o desejo carnal de fazer e bem! Quantas horas de oração são gastas pedindo-se a Deus que abençoe projetos arquitetados para a glorificação de pequeninos ho­mens!  Quanto dinheiro sagrado é  despejado sobre  homens  que,  a despeito dos seus lacrimosos apelos, só procuram realizar uma bela e carnal exibição.
O cristão verdadeiro deve fugir disso tudo, Especialmente os ministros do Evangelho devem sondar os seus corações e examinar lá no fundo os seus motivos íntimos. Ninguém merece sucesso enquan­to não estiver disposto a fracassar. Ninguém é moralmente digno de sucesso nas atividades religiosas enquanto não quiser que a honra da vitória vá para outrem, se for esta a vontade de Deus.
Deus talvez permita que o Seu servo tenha êxito depois de o ter disciplinado, a tal ponto que ele não precise vencer para ser feliz. O homem a quem o sucesso exalta e o fracasso abate é carnal ainda. Na melhor das hipóteses, o fruto que der terá bicho.
Deus permitirá sucesso a Seu servo quando este aprender que o sucesso não o torna mais caro a Deus, nem mais valioso no esquema global das coisas. Não podemos comprovar o favor de Deus com grandes reuniões ou apresentando conversos ou com novos missionários enviados ou com a distribuição de Bíblias. Todas estas coisas podem ser realizadas sem o auxílio do Espírito Santo. Uma boa personalidade e um penetrante conhecimento da natureza huma­na é tudo que qualquer pessoa necessita para ser um sucesso nos círculos religiosos hoje.
A nossa grande honra está em sermos precisamente o que Jesus foi e é. Ser aceito pelos que O aceitam, rejeitado pelos que O rejeitam, amado pelos que O amam e odiado por todos os que O odeiam — que maior glória poderia advir a alguém?
Podemos dispor-nos a seguir a Cristo rumo ao fracasso. A fé se arrisca a falhar. A ressurreição e o juízo demonstrarão perante os mundos todos, quem ganhou e quem perdeu. Podemos esperar.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Mudança

"É NA MDANÇA QUE ENCONTRAMOS UM OBJETIVO"

Com essa frase do filósofo Heráclito, quero deixar meu recado a todos os leitores e seguidores que estarei de mudança para a cidade de Curitibanos - SC. Como o próprio Heráclito disse: É na mudança que encontramos um objetivo. Isto significa, que Deus tem sempre algo para nós, mesmo muitas vezes não entendendo os seus planos. Assim, durante o período de alguns anos em Palhoça, dos quais 4 anos  foram dedicados a escola teológica, e 2 anos e 9 meses dedicados a congregação da Praia do Sonho no mesmo município, agora estamos próximos de um novo objetivo - de uma nova missão.
Quero ainda expressar meus agradecimentos a todos que apoiaaram e apoiam este blog e meu ministério.
Quero agradecer a todos os alunos da Escola Teológica de Palhoça, pela compreensão e o esforço que tiveram durante o tempo em que estivemos compartilhando um saber teológico com todos os alunos e professores da ETEP.
Sei que haverá de ser muito frutífero o ministério de todos.
Infelizmente, não houve tempo para uma despedida pessoalmente, mas quero deixar meus sinceros votos de agradecimento e de muitas bençãos a todos os estimados irmãos.
Fraternalmente em Cristo.
Pb. Marcelo L. Mendes

domingo, 12 de junho de 2011

POR QUE VOU ROMPER COM MINHA IGREJA

Durante muito tempo, e após uma séria avaliação da situação em que se encontra a igreja evangélica nos dias atuais, cheguei a triste conclusão de que terei que romper com a igreja, em que a maioria de nós hoje pertence – a igreja de Laodicéia.
A motivação pelo qual me desligarei dessa igreja é justificada, pelo fato, de haver muitos acontecimentos desagradáveis, que comprometeram a identidade da igreja, e sua principal missão.
Desde já, esclareço que não culpo toda a igreja pelo descontentamento e decepção do meu coração, porque sei que em Laodicéia, ainda há a preocupação de Jesus com essa igreja. No entanto, diante dos acontecimentos ocorridos ao longo de tantos anos, não haveria outra opção, a não ser de deixar tal igreja. Neste caso passo a expor os acontecimentos que me fizeram tomar tal decisão.
Em primeiro lugar, não posso pertencer à uma igreja que não tem uma posição definida quanto a pureza doutrinária e ortodoxia na palavra de Deus. Isso significa que minha igreja não se preocupa mais com a doutrina apostólica, não estabelece um limite entre o que é santo e o que é profano. A igreja está em cima do muro. A igreja caminha paralelamente com uma linha muito tênue, entre a verdade e a firmeza da fé, e os padrões e relativismo do mundo atual. E o mais triste ainda, é o fato de Jesus Cristo, por vezes tem falado na igreja: “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; Ap 3:15,16” , o problema, é que ninguém tem  ouvido o que o Espírito diz as igrejas.
Se não bastasse, a seriedade do problema em que a igreja se encontra, ainda há outros a relatar. O segundo grande problema da igreja de Laodicéia, é a falta de visão espiritual em que os líderes eclesiásticos já perderam. Em nossa igreja, muito se fala de grandes construções, muito se auto-declaram, possuidores de uma grande visão dada por Deus, para construírem templos e mega catedrais evangélicas, com justificativa, de temos um poder econômico de por inveja aos demais seguimentos religiosos. E por que não dizer, certos segmentos empresariais. No entanto, há um equivoco contundente, nessa suposta visão divina – de progresso patrimonial. A razão do equivoco é bem simples. Sim devemos edificar templos, devemos nos preocupar com conforto para o povo que vem a igreja. Devemos dar acessibilidade aos portadores de necessidades especiais, devemos cuidar com o excesso de ruídos, para não perturbar nossos vizinhos, e sim ganha-los para Cristo. Devemos nos preocupar com designers de interiores, e com toda a infra-instrutora, acolhedora para todo aquele que vem ao templo. Contudo, não podemos esquecer que devemos nos preocupar com o significado da verdadeira edificação – a edificação espiritual.


É justamente, nesse ponto que a igreja de Laodicéia peca. Por querer ampliar suas fronteiras patrimoniais, sem levar em conta, suas fronteiras espirituais. O motivo disso é óbvio. Para ter os recursos, a fim de tornarem seus projetos arquitetônicos em realidade, evidentemente precisa de um grande suporte financeiro. O que nesse caso, a igreja de Laodicéia dispõe em abundancia. Entretanto, o que parece uma demonstração vaidosa de recursos financeiros e sua capacidade de gerir tais recursos, surge diante dessa realidade, uma voz com audível repreensão. “pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.” Ap 3:17.
O que parece uma conquista eclesiástica, uma demonstração de capacidade administrativa, uma realização para satisfação do ego humano, ou pior ainda, uma prova de que tal igreja ocupará um lugar de destaque no ranking das igrejas mais bem sucedidas, nada disso impressionou a Jesus. Jesus simplesmente despreza toda a altivez. Toda a vaidade do coração humano. Porque o Senhor se preocupa com poder espiritual, e não com poder financeiro. Preocupa-se com a simplicidade do coração, não com a vaidade exteriorizada através de projetos arquitetônicos. Em resumo, o que parece impressionar os homens, não impressiona a Deus.  Ter recursos para implantar bons projetos é licito, e deve ser investido. No entanto, não devemos desprezar a repreensão do Senhor, que conhece nossas obras e profundamente nosso coração.
Em terceiro lugar vou me desligar dessa igreja, pelo fato de que ninguém consegue ouvir mais a voz do nosso Senhor Jesus. Sua voz parece ignorada, sua advertências desprezadas, seus conselhos desdenhados. Vejam o que o Senhor diz: “Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas.” Ap 3:18. É trágico pensar que em meio à tão urgente advertência, o coração ainda possa estar endurecido. É possível que alguns interpretem mal, as repreensões do Senhor, que por sua vez as faz, com um único objetivo – o amor. “Eu repreendo e disciplino os quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te.” Ap 3:19. Tudo o que o Senhor Jesus espera é uma profunda reflexão das atitudes. O que ele espera é que estejamos com os ouvidos atentos aos seus insistentes chamados, porque essa igreja o deixou pelo lado de fora, batendo na porta, na esperança de que essa igreja possa ouvi-lo e convidá-lo a entrar e novamente desfrutar de profunda comunhão com sua igreja. Enquanto isso não ocorre, prefiro eu sair dessa igreja e me juntar ao Senhor que ficou pelo lado de fora. Definitivamente prefiro ficar onde Jesus está.
Conclusão. Ei sei que existem outras igrejas imperfeitas, que também tem seus problemas. Mas o que me deixa preocupado é que nessa igreja de Laodicéia, Jesus Cristo não tem mais a importância devida, o Senhor já não é mais Senhor. A liderança tomou o controle de todas as situações, o dinheiro fala mais alto, o orgulho é evidente, sua voz é negligenciada, suas repreensões são desprezadas, e pior de tudo, ainda se vangloriam que são uma igreja poderosa e que Deus somente fala através dela. Que engano. Se Jesus ainda fala, Ele está falando com insistência para alguém abrir a porta.
Por isso me desligarei dessa igreja, não consigo mais ouvir Jesus chamando da porta, e ninguém a abrindo. Prefiro me juntar a Ele. E quem sabe, se for para outra igreja, Talvez eu seja aceito como membro da igreja de Filadélfia.